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Suas mãos são as maiores
Pe. Roberto Aspe, L.C.
Nasceu no dia 20 de agosto de 1965 na Cidade do México. Concluiu seus estudos no Instituto Cumbres e na Universidade Anáhuac. Em 1984 consagrou sua vida como leigo no Movimento Regnum Christi. Em 1992 começou sua vida religiosa no noviciado de Salamanca (Espanha). É licenciado em administração de empresas pela Universidade Anáhuac (México), licenciado em filosofia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma), bacharel em teologia pelo mesmo Ateneo, cursou o PIL em Havard University (Estados Unidos) e atualmente estuda a licenciatura em direito canônico na Universidade Gregoriana (Roma). Desempenhou os cargos de diretor de finanças na Universidade Anáhuac e administrador territorial do México e América do Sul, entre outros.

 

Eu resisti muito a entregar-me à vocação. Pensei por mais de quatro anos. Sinceramente não queria consagrar-me a Deus e desejava seguir construindo minha vida, aproveitando as oportunidades que me eram oferecidas. Meu sonho era ser um grande empresário e me preparava para isso. Aos 12 anos pedi a meu pai que me desse a oportunidade para trabalhar em uma empresa de seguro durante o verão. Certamente não foi um desejo realizado com plena consciência, mas já o via como o primeiro passo para ganhar dinheiro com meu próprio esforço e conhecer o mundo empresarial.

A experiência foi extraordinária; por isso a repeti no verão seguinte. Independentemente da experiência profissional que tive, me chamou muito a atenção as relações superficiais e banais que existiam entre alguns dos empregados da empresa. Eu fazia parte do ECYD (grupo de adolescentes que dirigem os
Legionários de Cristo) e me incomodava o fato dessas pessoas não conhecerem a Deus pelo fato de trabalharem em uma empresa financeira; todavia, via que eles não tinham culpa, pois um escritório era tampouco o lugar mais adequado para o sacerdote...Que culpa tinham, pois, não havia ninguém que lhes pregasse. Isso me deixava inquieto e assim começou a idéia de consagrar-me a Deus como leigo para poder trabalhar nestes ambientes e ajudar espiritualmente às pessoas que trabalham no mundo empresarial e financeiro.

A idéia me parecia boa e já acreditava que era compatível com o meu desejo de ser empresário; mas a boa vida, a universidade e a possibilidade de ter uma empresa própria me obrigou a adiar a decisão de consagrar-me. Divertia-me muito com os meus amigos, com meu ambiente social, com as festas, com tantas coisas que me pareciam maravilhosas. Na universidade, o decano da faculdade de administração dizia que só um em cada três alunos sairia graduado. Propus-me a ser um deles e, com um bom grupo de amigos, nos dedicamos completamente aos estudos. Também me defrontei com a possibilidade de ter uma empresa própria com as facilidades que naqueles anos o governo mexicano oferecia para a exportação. Eu pensei em exportar prata e ônix para os Estados Unidos aproveitando um contato que parecia comprometedor. Assisti a vários cursos no Instituto Mexicano de Comercio Exterior e me parecia muito viável a possibilidade de começar uma incipiente empresa própria.

Carreira profissional, possibilidade de uma empresa própria e uma vida cristã boa, parecia uma boa mistura para conseguir a satisfação que buscava, mas devo dizer que minha experiência foi contrária à esperada. Tudo isso me enchia os olhos, mas, em pouco tempo, uma vez que me habituei às coisas, o sonho se dissipou totalmente. Assim acontecia sempre. Dava-me conta que as coisas não resistem ao tempo, se tornam ultrapassadas. Apliquei isto a mim mesmo: Dentro de 40 anos já terei quase 60 e já terei vivido boa parte da minha vida.

Comecei a titubear em meus planos. Eu mesmo notava que me detinha diante de novas diretrizes e que renunciava a elas sabendo que um dia iriam terminar. Eu queria permanecer e me dava conta de que as coisas externas não me davam segurança. Queria essa segurança como qualquer empresário de investir no lugar que me proporcionasse os melhores rendimentos com o menor risco, mas não encontrava uma oferta que me desse todas as seguranças.

Suas mãos são as maiores, disse a mim mesmo um dia diante da imagem em bronze de um enorme Cristo elegantemente pendurado de 6 ou 7 metros que se encontra na Igreja de San Ignacio de Loyola no México. Diante dessas mãos, proporcionalmente enormes em relação à figura, me dei conta de que Deus me oferecia suas mãos para levar adiante minha vida e encarar o compromisso da consagração leiga que anos antes havia traçado para mim. Via diante de mim um caminho que me dava segurança, não por mim, mas por quem me guiava. Uma grande paz invadiu minha alma, Deus me dizia que se a vontade é grande, a dificuldade é ligeira. Agora eu digo com muita facilidade, mas me lembro que tive que sofrer muito para chegar a esta conclusão.

O momento mais difícil foi dizer isso ao meu pai. Eu pensava que ele não ia entender a minha decisão. Não pude conter as lágrimas ao contar para ele, pois sabia quanto sacrifício havia feito para que tivéssemos a melhor formação. Acreditava que pensaria que estava tomando essa decisão por medo de enfrentar a vida. Para minha surpresa sua resposta foi: Eu lhes eduquei para que cada um escolha o que quer ser na vida e se esforcem para ser o melhor. Não me importa que seja gari, mas que seja o melhor. Se eu me opusesse a tua decisão, iria contra meus princípios de formação e eu, contra meus princípios, não posso ir. Podes seguir, e lembre-se que sempre terá sua casa. Agora mesmo não posso dizer ao papai se fui o melhor neste caminho porque estou certo de que não fui -, mas posso assegurar-lhe que fui fiel à palavra que um dia dei a Deus para seguir-lhe.

Em poucos dias entrei como leigo na vida consagrada do Regnum Christi para poder chegar àqueles ambientes que conheci em minha experiência profissional aos 12 anos. Depois me dei conta de que Deus me pedia para ser sacerdote e, por isso, ingressei na vida religiosa na Legião de Cristo.

Estes 18 anos de caminho não foram fáceis. Às vezes duvidei, experimentei minha fraqueza, cai, mas sempre, apesar de tudo, segui buscando essas mãos que sempre me guiam na escuridão e que me ajudam a compreender que jamais poderei ser dono da vocação que recebi nem faze-la objeto de domínio. Agora, antes de receber o sacerdócio, volto a buscar essas mãos que meus pais me ensinaram a buscar e confio nelas para que sempre me leve adiante neste caminho que hoje volto a confirmar.

                                                                                                                                                                                                       
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